[Artigo] O olhar de um designer sobre a evolução do Magic

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deisgner capa

Geralmente eu tento falar sobre o jogo, mas percebi que nunca falei realmente sobre o jogo. Confuso, né? Pois é, tão confuso quanto a definição de design. Sério, todo mundo ouve esta palavra, mas poucos sabem realmente explicar o que é. A maioria que pensa saber o que é, está na verdade errando sobre seu conceito. Não vim aqui dar aula sobre design, nem algo do gênero. Vim exatamente para fazer uma análise do meu ponto de vista profissional sobre o jogo, como um designer.

O olhar de um designer sobre a evolução do Magic

Sabemos que o Magic está em constantes evoluções, sejam em regras ou na inserção de novidades no jogo. Mas algo que quero deixar claro e que pretendo explorar aqui, foram as duas grandes mudanças no layout das cartas, a primeira apresentada na oitava edição (layout modern) e a segunda apresentada em M15 (com selo holográfico e tudo mais).

Então vamos lá…

Em 1993 , Richard Garfield lançava nosso tão amado card game. Logo que saiu a edição Alpha e Beta, tivemos o seguinte layout de carta:

raio designer

Uma carta com borda preta. Onde no texto de informações sobre a carta (no canto inferior da mesma), continha apenas o nome do ilustrador da carta. Logo acima temos os tipos, subtipos, ultratipos, megatipos, etctipos, no caso do Lightning Bolt, uma mágica instantânea (instant). E no topo da carta temos o nome desta e seu custo de mana convertido. Este se tornaria então o layout clássico do magic, a primeira identidade visual no magic. Na minha opinião, este layout é o que mais se aproxima do conceito do jogo, um duelo entre magos. Seu layout remete muito bem ao que seria uma página de um livro de magias, um antigo livro de magias.

Os principais problemas para um profissional de artes gráficas neste layout clássico é a tremenda falta de diagramação dos elementos presentes na carta, isso causa uma quebra visual absurda. Para aqueles que nunca pararam para analisar a semântica dos elementos presentes em uma carta de magic, pode achar bobagem. Mas se você, que até mesmo estuda exatas e já se deparou com a maldita proporção áurea ou algo do gênero, vai ficar abismado com tamanha discrepância nesta diagramação:

raio designer line

Reparem nas linhas de chamada azuis que puxei aqui. O nome da carta está totalmente perdido, sem alinhamento algum com o restante dos blocos. O tipo da carta (instant) e o nome do ilustrador estão alinhados a caixa da ilustração, mas não adiantou muito, pois a caixa de texto entre elas está desalinhada, se ela mantivesse o mesmo padrão da caixa de ilustração, teria um apelo visual muito melhor e mais organizado. O custo de mana quase foi alinhado à caixa de ilustração, mas falhou por alguns milímetros.

Isso pode parecer bobagem, certo? Mas se fosse mesmo, por que a Wizards ia trabalhar tão bem na diagramação já na quinta edição?

giant growth designer

Vejam como está melhor, até o texto da carta foi justificado à esquerda da caixa de efeito / informações da carta. Apenas o símbolo de mana pecou aqui na diagramação. Mas calma, tudo isso mudaria logo logo com o layout modern(o)… Mas deixemos isto para depois, vamos voltar ao foco do início do desenvolvimento do jogo…

Devido ao grande sucesso do jogo logo que lançou, ficou obvio que o jogo continuaria com novas expansões. Afinal, se está vendendo bem, por que parar de produzir e aperfeiçoar? Pois é, nisso tivemos o lançamento da edição Unlimited (e me corrijam se estiver errado), a primeira edição com borda branca no Magic. Aqui nós temos o primeiro tiro na culatra da Wizards no quesito layout. Não digo que a borda branca é feita, muito pelo contrário, adoro as cartas de borda branca (diferente de muitos jogadores).

raio 2 designer

Ok, mas então qual foi o erro em Unlimited? Simples, a borda branca.

Calma vou explicar melhor… A borda branca, “visualmente falando”, é agradável e deixa a carta com um identidade visual mais clean. Porém, ao sermos obrigados a misturar cartas de borda branca com borda preta, percebemos que esta interação visual não fica boa. Ela fica péssima. E este pode ser o principal motivo dos jogadores odiarem a borda branca.

Outros jogadores gostam da borda branca, mas odeiam o fato de terem que usar cartas de borda preta também. Ou seja, a maioria dos jogadores que odeia uma das cores, é porque não existem cartas em todas as cores da sua borda favorita, obrigando eles a utilizarem cartas com layouts que eles desaprovam. Tem algo pior que isso? Imagine você ser obrigado a vestir uma peça de roupa que odeia porque é necessário? Pois é, temos uma situação semelhante aqui no magic. Isso pode parecer bobagem, mas devido a esta implementação da borda branca, de forma geral, ela criou tanto repúdio dos jogadores que isso chegou a influenciar até mesmo o mercado de cartas. Tendo algumas cartas em borda preta o valor muito superior que a mesma carta em borda branca, exatamente por ser mais fácil montar um deck só com bordas pretas do que brancas, fazendo a procura de bordas pretas maior no mercado. Ou pelo fato dos únicos core sets “clássicos” com borda preta serem Alpha e Beta (a grosso modo), aumentando ainda mais a procura pela borda preta.

Como disse acima, as bordas brancas foram implementadas apenas em core sets, as famosas coleções básicas. Tudo começou em Unlimited, passando por Revised, Quarta Edição, Quinta Edição, Sexta, Sétima, Oitava e finalizando o ciclo em Nona Edição.

Décima edição foi o core set que decidiu abolir de vez a borda branca do jogo, pois a wizards já havia percebido que a proposta não agradava muito. Se você começou a jogar recentemente, pode achar isto uma bobagem, mas muitos jogadores já sofreram com isso, pode ter certeza.

Outro problema visto para a borda branca ser odiada mais que preta pelos mais variados jogadores foi o fato das bordas brancas estarem presentes apenas em core sets (edições que consistem basicamente de reimpressões de cartas que já existiam em outras edições) e todos os blocos (com cartas novas) serem lançados em borda preta. Então os jogadores passaram a tentar completar seus decks com borda preta e as bordas brancas passaram a ser vistas como segundo plano (afinal, a maioria era reimpressão de cartas preexistentes).

Mas na minha humilde opinião, onde ocorreu a maior mudança de qualidade visual no Magic, foi entre os blocos de Tempestade e Saga de Urza. Antes Richard Garfield preferia omitir a raridade das cartas, por isso não tínhamos como saber a raridade antes desta edição, apenas com especulações ou lendo alguns materiais oficiais sobre magic. Na última edição do bloco de Tempestade, Êxodo, tudo mudaria. Foi apresentado aos jogadores as 3 raridades do magic, como podemos ver neste exemplo da edição Saga de Urza (mas detalhe, as raridades foram apresentadas na edição “Êxodo”):

raridade urza designer

Foi criado então 3 cores para distinguir as cartas entre comuns (símbolo da edição preto), incomuns (símbolo da edição prateado) e raras (símbolo da edição dourado). Isso foi excelente para os jogadores, agora poderíamos distinguir a raridade e valores das cartas de uma forma mais simples e sem muitas pesquisas. Isso facilitou o jogo e trouxe um apelo visual interessante para as cartas. Pois agora temos cartas divididas pela sua raridade. Isso deixou o jogo mais organizado.

Mas como se não bastasse, no bloco de Saga de Urza tivemos a inserção de cartas foil no jogo. Outra grande inovação deste. Agora era possível tirar algumas cartas brilhantes, holográficas, especiais, seja lá como você chame, em boosters. As cartas foil aparecem de forma bastante limitada nos boosters e pode ser qualquer carta da edição. Isso para colecionadores ou para jogadores que gostam de deixar seus baralhos com um aspecto visual mais agradável (pimp), foi um presente da Wizards. É raro existir um jogador que não goste das cartas foil (mas eles existem), afinal o aspecto visual da carta ficou melhor sendo foil. Além de embutir o valor de ser de difícil obtenção, a carta realmente ficava mais “elegante”.

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Não tem muito o que dizer, acarta realmente fica mais bela, mais agradável. E remete automaticamente a algo valioso, devido ao seu brilho fazer analogia ao brilho de pedras preciosas. O símbolo que remete a uma estrela cadente na base da carta foil, confirma ainda mais esta analogia de preciosidade nas cartas foil.

O tempo passou e em 2003 tivemos a primeira grande mudança no layout das cartas com a Oitava Edição. Fomos apresentados ao layout modern(o), nome que acabaria sendo dado a um formato construído de Magic no futuro, não é mesmo?

Agora fomos presenteados com um layout mais modern (por mais que os conflitos com a borda banca / borda preta ainda existissem), um layout que perde um pouco daquela analogia ao livro antigo e acaba remetendo mais para uma tabuleta com inscrições antigas sobre uma magia:

giant growth designer 02

A mudança foi sútil e ao mesmo tempo, a organização de cada elemento dentro da carta ficou muito melhor. Temos basicamente 4 caixas:

Uma com nome e custo de mana da carta, outra com a ilustração, outra com o tipo da carta e sua raridade / símbolo da edição e por fim, a caixa de texto de efeito da carta. Ao rodapé foram mantidas informações menos pertinentes sobre a carta no decorrer do jogo, como o número da carta na edição, nome do ilustrador, o ano de lançamento da edição, marca registrada da Wizards, etc…

Ah, eles fizeram esta gafe de não alinhar o texto dentro da caixa de efeito da carta, mas em décima edição foi tudo normalizado, olhe como foi centralizado (eu ainda preferiria que fosse justificada à esquerda, afinal você já escreveu em um livro de forma centralizada? Pois é, mas antes centralizado do que não alinhado):

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Com isso, temos um layout ótimo e que serviu até os dias de hoje muito bem. Mas mudamos em M15 e qual o motivo, vocês me perguntam. O layout recente era bom, pra que mudar mais uma vez? A Wizards foi muito esperta aqui, é obvio que as gerações mudam e seus gostos também. Porém, mudanças causam desgostos nos clientes mais saudosistas (bastante presente no Magic) e como dizem, se preocupe mais em agradar seus clientes fixos do que em conquistar novos. O que a Wizards fez? Aproveitou o gancho da necessidade de driblar as falsificações (que estavam causando muita revolta entre os jogadores) e inseriram um selo holográfico (com o mesmo princípio do selo que temos nas cédulas de dinheiro) nas cartas. Com isso, “foi preciso” adaptar o layout para este selo. É lógico que eles não precisavam mudar o layout para por o selo, é lógico que eles não precisavam criar o selo (afinal, as falsificações  não impactam tanto o mercado deles, apenas estava criando um rage entre alguns jogadores). Mas o que fizeram, foi modernizar ainda mais o layout para agradar de forma mais eficaz a nova geração de jogadores (adolescentes de 13-16 anos) e o anúncio do selo agradou tanto o jogador antigo (que sentiu que a Wizards finalmente fez algo em prol do jogo e não em prol do capitalismo Hur-dur), que eu não vi ninguém reclamando da alteração no layout no fim das contas.

Mas ai fica um questionamento meu aos jogadores mais saudosistas, tradicionais, etc (lembrando que sou um destes). Por que vocês não reclamaram tanto da mudança no layout desta vez? Foi realmente abafado pelo selo anti falsificações ou foi pela qualidade visual do novo layout ser excelente?

m15 new frame designer

O layout pouco mudou em M15 do que foi apresentado em Oitava Edição. A principal mudança, foi a base preta na carta, e uma ótima diagramação das informações gerais nas cartas. Agora fica muito mais harmônico de se ler a fonte branca no fundo preto. Uma pequena mudança e que veio somente para acrescentar ao layout modern(o).

Uma última coisa que não poderia deixar de falar e que ficou para o final exatamente para poder comprar estas transições, foi a inserção (mudança) da caixa de poder e resistência no layout das cartas de criatura:

goblin designer

Isso mesmo, antes não existia uma caixa específica para o poder e resistência das cartas de criatura. Com o layout modern(o), isto foi criado. E juro que esta foi a única atualização que não me agradou. Antes o poder e resistência ficavam jogados na base da carta. Mas era clean e simples. Agora parece que a caixa continua jogada ali, mas de uma forma muito over. E isso tirou um pouco da clareza visual das cartas de criatura.

O mais de legal de tudo, com certeza são layouts especiais que são lançados de tempos em tempos, sejam para edições especiais ou para cartas promocionais. Na maioria das vezes, estas cartas são lançadas para causar o mesmo efeito das cartas foil nos consumidores, como é o caso de cartas textless por exemplo:

bolt designer

Quer qualidade visual maior do que retirar todos os textos e caixas da carta e colocar apenas uma ilustração incrível? Pois é, aqui a imagem vale “quase” mil palavras.

Temos também layouts como as promos de game day, onde o texto é mantido, mas a ilustração contempla praticamente toda a carta:

zameck designer

Tivemos ainda em Portal, um layout interessante para o poder e resistência das criaturas:

goblin furioso designer

A espada e escudo fazem uma analogia direta aos jogos de rpg (role-playing game) e isso na época causou um apelo visual tão forte nos jogadores, que quase todo jogador que passou pela época de Portal cita a edição exatamente por causa deste apelo visual. Hoje, isso com certeza não daria certo. O vintage, o medieval, entre outros, não estão tão em alta com as gerações atuais. Teríamos grandes chances de relançar esta identidade visual da espada / escudo e ser considerado como um fracasso nos dias de hoje.

Enfim jogadores, estas foram as minhas considerações de forma geral (afinal o jogo sofre metamorfoses praticamente a cada edição e não queria me prolongar demais) sobre o jogo, o que eu quero aqui é que tanto os jogadores mais antigos quanto os mais novos possam comentar e debater o que acharam destas mudanças ao decorrer do jogo.

Afinal, não precisar ser profissional na área artística para ter um gosto visual e opinar sobre ele. Você é consumidor e tem todo direito de criticar algo por mais que leis áureas e afinas digam que é “belo”. Então eu quero saber de você, caro leitor, quais mudanças nos layouts do jogo mais lhe agradaram e quais mais lhe incomodaram. Esqueci de algo? Comente também. Queremos muito seu feedback!

Henrique Amaral

Idealizador e criador da Balcker Lotus, fissurado em games desde criança quando ganhou seu primeiro vídeo game, um Master System!

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3 Resultados

  1. Mikez disse:

    Cartas foil são a desgraça de magic atualmente, simplesmente ridículas…. e custam um absurdo a mais que a mesma carta da mesma edição…. Se fossem apenas cartas especiais tudo bem, mas não…

  2. JNeto disse:

    Excelente artigo! Fui jogador de Magic na adolescência e, recentemente, ao tentar introduzir meu filho e sobrinho no mundo de Magic, me surpreendi (assustei) com a quantidade de mudanças (design/regras) que o jogo sofreu. Vlw por esclarecer um pouco.

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